Lola e Benjamin | Capítulo 1

Chovia. Sempre achei que coisas ruins aconteciam em dias de chuva. Até os meus lugares preferidos da cidade, como a Avenida Paulista, ficam feios em dias de chuva. Não conseguia parar de olhar o horário no celular e pensar que horas seriam em Nova York. Será que ele já tinha lido minha mensagem? Será que ele já sabia?

Ao meu redor, pessoas não paravam de me cumprimentar e dar os pêsames, mas meus olhos estavam tão inchados que eu mal conseguia ver quem era quem. A noite passada tinha, com certeza, superado todas as dores que eu já havia sentido ao longo dos meus 23 anos. Sem pregar o olho a noite toda, mal tinha condições para ficar em pé e, muito menos, dar a atenção devida para todos que chegavam ao velório.

Era incrível a quantidade de pessoas que tinha enviado flores. Todas brancas e do jeito que ela gostava. Apesar de tanta gente ao meu redor, o único som que eu ouvia era de choro e narizes fungando. Incrédula, eu só conseguia encarar o caixão e o corpo de uma das pessoas mais importantes da minha vida estendido bem na minha frente. E o que me deixava mais desolada é que nada que eu fizesse mudaria aquela situação.

Pensava em Benjamin e em como seria bom poder abraçá-lo neste momento. Por um segundo, até parecia que eu podia senti-lo mesmo estando quilômetros e quilômetros distante de mim. Algumas horas depois de ficar sabendo do ocorrido, a única pessoa que eu queria ver era Benjamin. Pensei em ligar desesperadamente até ele atender, mas levando em consideração que a última vez que nos falamos não havia terminado muito bem, achei melhor apenas enviar uma mensagem. Até então ele não tinha respondido. Não sei se porque não sabia o que falar ou se porque realmente não tinha lido a mensagem. Desde que nos falamos pela última vez eu só conseguia me lembrar de como nos conhecemos e como tudo o que tínhamos vivido costumava ser tão leve.

Olhar o corpo de uma pessoa amada dentro de um caixão me fez pensar tanta coisa, mas, principalmente, no começo de tudo. Acabei me dando conta de que apenas quando algo chega ao final que damos verdadeira importância para o que vivemos no meio e, mais ainda, para o começo. Até o final bater na nossa porta, achamos que ele não passa de um mero espectador que nunca nos atingirá de fato. No momento em que este pensamento atingiu minha mente, o padre fazia a oração final. Meus olhos só sabiam chorar, meu corpo tremia e eu mal tinha forças para me manter em pé. Olhei para a minha mãe, que estava com a cara tão péssima que parecia estar prestes a desmaiar.

“Todo final nos conduz ao começo”, pensei. E o caixão foi fechado.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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