O dia em que percebi que tinha crescido, provavelmente foi o mesmo em que você decidiu ir embora

A gente nunca esquece um dia desses. Mamãe me mandou chorar tudo que tinha para chorar, mas me alertou que, querendo ou não, a vida teria que continuar. Os ponteiros do relógio continuariam andando e eu não poderia ficar parada esperando. Senti falta dos meus 10 anos de idade, quando podia simplesmente faltar na escola por causa de uma dor de barriga sem precisar dar explicações para ninguém. Senti falta dos meus 10 anos de idade, quando um beijo e um abraço de mamãe me faziam acreditar que todas as dores do mundo eram passageiras.

Mas, naquele dia, entendi que ninguém poderia me abraçar e dizer que ficaria tudo bem, porque eu já não acreditava mais naquelas palavras que pareciam tão dóceis nos meus 10 anos. Finalmente me dei conta de que eu tinha crescido e as minhas dores eram só minhas. Ninguém poderia senti-las por mim. Eu já não podia mais faltar na escola sem dar satisfações e, para piorar, era obrigada a lidar com as minhas próprias dores de frente, sem abraços capazes de mascarar meus machucados.

Quando uma dor muito grande nos atinge assim, nos damos conta de que crescemos. Percebemos que já somos adultos o suficiente para machucarmos e sermos machucados sem aviso prévio e, finalmente, entendemos que a vida adulta é exatamente isso: muita dor no meio de respingos que chamamos de felicidade. Não somos mais aquelas crianças puras e inocentes. Com a liberdade e a autonomia chegam junto as responsabilidades, as contas para pagar e os amores perdidos.

Não tirei da cabeça a frase que minha mãe havia me dito na noite anterior: “A vida terá que continuar”. De alguma forma, juntei forças que nem sabia que eu tinha, enxuguei minhas lágrimas e coloquei minha “roupa de viver”, como diria Clarice Lispector. Fiz isso todas as vezes que levei um soco no estômago e aprendi que, mesmo quando estamos em pedaços, a vida sempre continua.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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