Lola e Benjamin | Capítulo 6

Após o enterro fomos direto para casa. Cada um se trancou em seu quarto para sentir sua dor de forma particular. Com o tempo, aprendi que as dores precisam ser sentidas até a última gota. Só assim conseguimos eliminá-las do nosso corpo e mente. Mesmo assim, ultimamente, a única coisa que eu não estava conseguindo fazer era eliminar minhas dores.

Como um machucado que permanece aberto, todas as vezes que eu acreditava estar me cicatrizando, alguma coisa acontecia e a ferida começava a sangrar novamente. Todo esse sangue, ao mesmo tempo em que significava essa eliminação de dor, também sinalizava que eu ainda estava doída por dentro. Meu maior medo era continuar sangrando para sempre.  “Alguma hora esse sangue terá que ser estancado”, eu pensava. Apesar de tudo, parte de mim ainda acreditava nisso.

Depois de horas e horas olhando para o teto branco do meu quarto, caí no sono sem perceber. Acordei com a claridade do sol que entrava pela janela, devido às cortinas abertas. Quando entrei no banheiro tomei um susto com o meu rosto. Não sabia que meus olhos podiam ficar tão inchados.

Era plena quinta-feira, mas por sorte tinha tirado licença de uma semana no trabalho, então tomei um banho, comi duas torradas empurradas e voltei para a cama. No fim da tarde, quando tomei coragem para sair do quarto, fui ver como minha mãe estava e dei de cara com milhares de fotografias de vovó espalhadas pelo chão. Quando me viu entrando, ela começou a chorar desesperadamente ao mesmo tempo em que fazia um sinal para que eu a abraçasse.

Não falamos nada. Não havia o que dizer, só precisávamos saber que tínhamos uma a outra. Ficamos ali até que ela caiu no sono no sofá. Fui para o meu quarto e vi que meu celular vibrava. Eram tantas as mensagens de pêsames nos últimos dias, que imaginei ser só mais uma dessas pessoas que não via há anos e que tinha ficado sabendo do ocorrido. Mas quando abri a mensagem, tomei um susto.

“Lola,

Sinto tanto pela sua perda. Posso imaginar como você e sua família estão desolados. Tudo o que desejo agora é muita força para todos vocês.

Não sei se é o momento certo para dizer isso, mas estou indo para São Paulo mês que vem. Gostaria de te ver.

Nos falamos em breve? Fique bem.

Beijos.

Benjamin.”

Tive que ler a mensagem no mínimo umas dez vezes para acreditar. Ele estava voltando. Em um mês. Estávamos em maio e não era para ele voltar até o final do ano. Eu estava conformada com a sua ausência nos próximos meses, mas agora parecia que tudo estava mudando de cena. Em poucas semanas Benjamin estaria pisando o mesmo chão que o meu.

Apesar de toda a dor que sentia naquele momento, não consegui deixar de esboçar um sorriso. Poderia ser que, finalmente, depois de tantos desentendimentos, Benjamin estivesse voltando para ficar. Pelo menos, era o que eu queria. Estava cansada de partidas inusitadas. Tudo o que eu precisava naquele momento era a calmaria de uma boa companhia. Tudo o que eu precisava era que Benjamin escolhesse ficar.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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