Olhares que conversam

Todo mundo sabe que quando o teu olhar cruza com o meu eles conversam. Tudo bem, talvez nem todo mundo saiba. Mas eu sei, e você também. Não adianta fingir que não notou, pegar o celular para remarcar aquela reunião das 15h na terça feira, ou dar aquela risada com o seu amigo pra fingir que está tudo bem. Eu sei. Você sabe. Nós sabemos.

Poderia ser em uma quinta chuvosa ou em um sábado à noite, tanto faz. Poderia ser em Paris ou aqui em São Paulo mesmo. Poderia ser no meio do metrô lotado ou em uma livraria vazia. Tanto faz, porque você sabe que quando eles se cruzam é difícil negar o que acontece.

Então, a gente se afasta para não precisar sentir tudo isso. E nessa de fingirmos que não somos nada, começamos a aprender a lidar um com o outro como se fôssemos completos desconhecidos. Foi assim que, de repente, me dei conta de como você já está tão distante, mesmo que continue morando dentro de mim.

Fui tomada pela estranha sensação de saber que você continua vivo, andando pelas mesmas ruas que costumava andar comigo. A diferença é que agora eu já não faço mais ideia de quando ou com quem você anda por essas ruas.

E não é que quando a gente se perde assim de alguém, bate aquela sensação de que o outro não passou de um mero sonho? De certa forma, parece que perdemos a noção da realidade, ainda mais quando somos obrigados a tratar alguém tão especial de forma tão indiferente.

Ela foi tudo aqui pra mim um dia? Ele era a pessoa com quem eu queria compartilhar minha vida? Era para ela que eu ligava quando a situação apertava? Era nele em quem eu pensava toda vez que a palavra amor chegava até mim numa conversa de botequim?

Sim. Era ele. Ou ela. E talvez ainda seja. Só não há mais a permissão para se fazer tudo o que se fazia antes. Mas, mesmo assim, o coração continua dando permissão para sentir, para amar. Para sentir a presença de quem já está longe, e para amar o que já não te pertence mais.

É, todo mundo sabe. E você sabe também. Sabe que quando nossos olhares se encontram, eles conversam. Eles não se aguentam. E toda essa sensação de que você se tornou um estranho, desaparece completamente. Porque, no fundo, essa sensação só existe porque nós deixamos ela existir. E você sabe tanto quanto eu que nossos olhares não podem se encontrar, porque nós decidimos que é melhor assim. Porque, toda vez que se encontram, eles ainda conversam.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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