O medo de ser esquecido por aquela coisa chamada amor

Quem nunca sentiu medo de ser a única do grupo de amigas que não arranjou um namorado até os 30? Quem nunca ficou vermelha quando fizeram aquela pergunta sobre estar solteira depois de tanto tempo? Quem nunca achou que tinha alguma coisa errada com a aparência ou o jeito de ser só porque os últimos encontros com todos aqueles caras que pareciam perfeitos foram na verdade muito ruins?

Já passei muito tempo tentando entender por que as pessoas continuam sentindo todas essas coisas.  Por que se sentem mal se não estão bem arranjadas até os 30? Por que ficam constrangidas quando precisam responder que estão solteiras por muito tempo? Por que acreditam que têm algo de errado com elas só porque os últimos encontros não foram de tirar o fôlego?

Outro dia, em uma roda de conversa com amigas solteiras, acabamos chegando nesse assunto. Falamos sobre todas essas coisas que fazem as pessoas se sentirem desencaixadas em uma sociedade que acaba impondo que quem fica solteiro por muito tempo não é feliz de verdade. E no meio desse vai e vem, uma delas soltou que tem medo de ser esquecida por essa coisinha tão adorada por todos, chamada amor. Mas, afinal, o que ela quis dizer com isso?

Apesar de muita gente não concordar, acredito que vivemos sim numa época em que é mais difícil encontrar um bom amor. O fácil acesso ao outro permitiu que banalizássemos as coisas de tal forma que acabamos querendo tudo num passe de mágica, apenas para a nossa própria satisfação. Não há mais paciência para romantismos. As pessoas têm preguiça de se envolverem e acabam preferindo um relacionamento casual, aberto, ou qualquer outra denominação que criaram para esse tipo de coisa. Quer dizer, se temos fácil acesso ao corpo do outro para nos satisfazermos, por que perder tempo com relacionamentos que exigem tempo e dedicação?

Foi assim que percebemos como nasceu esse medo que muitas pessoas cultivam: o medo de serem esquecidas pelo cupido do amor.

Hoje temos vinte e poucos anos. É bom demais estar solteiro e aproveitar a vida. Mas e se eu sonhar com casamento e filhos mais pra frente? E se eu não encontrar ninguém para partilhar comigo esses sonhos? E se o cupido do amor se esquecer de que, por mais que eu queira estar sozinha agora, no futuro eu quero ter alguém? E se esse alguém nunca chegar?

Há quem não concorde, mas ainda acredito que a banalização dos relacionamentos possui uma boa parcela de culpa nisso tudo. Muitos acabam se sentindo inseguros com o crescimento dos “desapegados” que não querem nada com nada e, assim, os bons e velhos românticos de plantão acabam se tornando fora de moda. Se ninguém quer nada com nada, como eu vou achar alguém que queira ficar comigo?

Enfim, chegamos à conclusão de que a sociedade impõe sim muitos padrões de felicidade e se casar e ter filhos é apenas mais um deles. Se você quiser ser solteira pra sempre e ir morar na Indonésia para explorar o mundo sem ninguém pegando no seu pé, isso é mais do que justo, contanto que você se sinta bem com essa escolha. Mas e se você realmente quiser ter uma vida mais tradicional, se casar e ter filhos? Isso também é mais do que justo, contanto que seja uma escolha sua e não dos outros.

Afinal, tem gente que gosta de acreditar que existe alguém reservado para nós e que se não tiver, simplesmente é porque não era pra ser. Não sei se acredito muito nisso. E se a minha amiga que quer tanto se casar e ter filhos, por um acaso não encontrar ninguém? Com quem ela vai compartilhar seus sonhos? Que eu saiba ainda não é possível comprar amor – pelo menos não o tipo de amor no qual eu acredito.

A verdade é que todo mundo já passou por isso. Todo mundo já sentiu essa pressão. Todo mundo já tentou ignorar esse tipo de pensamento indo para uma balada numa sexta à noite depois de terminar com aquele cara que “era pra ser o grande amor da sua vida”. Todo mundo já se sentiu deslocado por ser o único solteiro na rodinha de casais. Todo mundo já pensou e repensou milhares de coisas quando o assunto é relacionamento. E, com certeza, todo mundo que já foi solteiro um dia sentiu aquele medo de não encontrar ninguém e ser completamente esquecido pelo maldito cupido do amor.

Os desapegados de plantão que me perdoem, mas eu ainda desconfio de pessoas que afirmam que não precisam e nunca precisarão de um amor. Chega um ponto em que todo mundo passa por esse tipo de pensamentos. Eu, diferente da minha amiga, ainda não sei o que eu quero para mim daqui cinco, dez ou quinze anos. Talvez eu esteja na Indonésia explorando o mundo ou, quem sabe, já estarei casada com três filhos.

E sabe de uma coisa, quando eu mesma percebi que não sabia o que queria pra mim, entendi que a resposta para isso tudo era muito mais simples do que imaginávamos: deixar acontecer. Às vezes a gente pensa demais, quer programar cada passo e, infelizmente, a vida não segue exatamente o roteiro que queremos. Talvez, se simplesmente deixarmos as coisas acontecerem, não teremos nem tempo para nos torturarmos tentando decidir se vamos para Indonésia ou se vamos nos casar semana que vem. E assim, sem nem nos darmos conta, as coisas vão simplesmente tomando seu rumo e acontecendo da forma mais natural possível… 

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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