A renovação espiritual em “Comer, Rezar e Amar”

“Comer, Rezar e Amar” é um daqueles filmes que faz muito mais sentido para o espectador dependendo da fase de vida em que ele está passando. Assisti alguns anos atrás e realmente não achei nada demais. Hoje, em um momento completamente diferente, enxerguei o filme com outros olhos.

A história gira em torno de Liz, uma mulher bem sucedida, mas que após o seu divórcio se dá conta de que tem um grande buraco dentro de si mesma. A personagem é uma ótima representação das pessoas que precisam de um tempo para se encontrar, e essa recuperação pessoal não se dá com bens materiais, mas sim com uma renovação espiritual. Para Liz, a solução foi passar um ano viajando. Começou pela Itália, depois Índia e terminou em Bali. Em cada um desses lugares ela se redescobre de uma maneira diferente.

Dois pontos chamaram muito a minha atenção na trama. Primeiro quando Liz está em Roma e envia um email para o seu ex namorado, David. Neste, ela fala sobre as ruínas que conheceu na cidade e sobre como isso lhe provocou uma reflexão. Liz fala sobre o medo que temos de abandonar aquilo que causa sofrimento, pois estamos completamente acomodados com a dor. Afinal, o medo da mudança acaba nos impedindo de seguir em frente. Mas ao se deparar com as ruínas de Roma e notar como elas se adaptaram ao longo dos anos, Liz se dá conta de que tudo na vida pode ser reconstruído, sendo as ruínas apenas o caminho da transformação. É impossível viver uma vida sem ruínas e mudanças.

“Lembra quando falou que devíamos ser infelizes juntos pra sermos felizes?  Considere uma prova do quanto te amo eu ter passado tanto tempo tentando fazer essa idéia dar certo. Mas, outro dia, um amigo me levou a um lugar incrível: o Augusteum.  Otaviano Augusto o construiu para abrigar seus restos mortais.  Quando os bárbaros vieram eles o demoliram junto com todo o resto. Como Augusto, o primeiro grande imperador de Roma, imaginaria que Roma e que todo o mundo como ele o conhecia ficaria em ruínas? É um dos locais mais sossegados e solitários de Roma. A cidade cresceu ao seu redor ao longo dos séculos. O lugar é como uma ferida, um coração partido ao qual você se apega pois a dor é boa.  Todos queremos que as coisas permaneçam iguais, David. Aceitamos viver infelizes porque temos medo da mudança, que as coisas acabem em ruínas.  Aí, eu olhei esse lugar, o caos que ele suportou, o modo como foi adaptado, queimado, pilhado e depois encontrou uma maneira  de ser reconstruído, e me tranqüilizei.  Talvez minha vida não tenha sido tão caótica. O mundo que é, e a única armadilha real é nos apegarmos às coisas.  A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva à transformação.”

Outro trecho extremamente interessante está no final do filme, em que Liz finalmente encontra seu equilíbrio espiritual e, por isso, decide fechar as portas para um novo amor. Assim como todos que já se apaixonaram, Liz se sente completamente amedrontada pela ideia de perder o chão com essa nova paixão. No entanto, Ketut, o guru de Bali com quem ela aprendeu a encontrar esse equilíbrio, faz um grande alerta.

“Às vezes, perder o equilíbrio por amor faz parte de viver a vida com equilíbrio.”

Sim. Temos pavor de perdermos o tão almejado equilíbrio quando nos apaixonamos. Mas como Ketut afirmou, isso é completamente necessário de vez em quando. Amar é uma das experiências mais enriquecedoras dessa vida e  faz sim com que percamos parte do nosso lado racional em prol das emoções. E não tem problema, pois isso faz parte, afinal, o amor é um ingrediente essencial.

Enfim, a grande lição que o filme deixa para os espectadores é extremamente valiosa e consiste em ensinamentos que acabamos nos esquecendo na correria do dia a dia. Sim, a vida não é simples. Iremos amar, nos machucar, amar de novo e nos machucar mais uma vez. Iremos nos encontrar no emprego dos sonhos, nos perder na falta de sentido da vida e procuraremos um significado para tudo isso. E essa busca é exatamente o que Liz fez. Ter a coragem de arriscar tudo pelo bem da saúde mental, algo que muitas vezes acabamos deixando de lado. Se sentir mal é completamente normal, mas se sentir incompleto e vazio o tempo todo é sinal de necessidade de renovação.

Tudo bem estar em ruínas, afinal, a própria Liz nos ensina que esse é o melhor caminho para a transformação. Mas não podemos ter medo de mudar, de deixar para trás o que faz mal, de irmos em busca de uma nova verdade. O equilíbrio é essencial e, com certeza, é o maior objeto de desejo da humanidade. Mas, assim como Ketut afirmou, não podemos nos apegar completamente a essa ideia, afinal, de vez em quando precisamos perder esse equilíbrio e nos jogarmos na vida sem receios.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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