Pelo fim da minha vida idealizada

Nasci. Brinquei de casinha. Deixei minhas bonecas de lado. Andei de motoca na escola. Fiquei com o joelho todo roxo. Ouvi minha mãe reclamar do joelho roxo. Ignorei. Aprendi a ler e a escrever. Ganhei o meu primeiro celular. Cresci. Mudei de escola. Me apaixonei. Dei meu primeiro beijo. Levei um baita pé na bunda. Escrevi algumas cartas de amor. Aprendi coisas que nunca mais usei na vida. Entrei na faculdade. Me apaixonei de novo. Levei outro pé na bunda. Prometi que não ia mais me apaixonar. Fui a muitas festas. Deixei alguns amigos de lado. Fiz novos amigos. Ouvi dizer que sexo estava diretamente ligado ao amor. Confiei nos filmes românticos. Acreditei no amor. Me apaixonei mais uma vez. Aprendi que amar é mais difícil do que imaginava. Consegui meu primeiro emprego. Quis jogar tudo pro alto. Persisti em meus planos iniciais. Terminei com dois namorados em menos de um ano. Entendi que sexo e amor são coisas completamente diferentes. Tentei abrir uma marca de camisetas. Desisti. Enjoei de balada. Fui ao cinema três vezes em uma semana. Me encantei por Clarice Lispector. Comecei a me amar mais. Valorizei mais a qualidade do que a quantidade. Descartei vários caras apaixonados por mim. Fiz sexo casual. Saí para dançar com as minhas melhores amigas. Arrumei um emprego novo. Saí da casa dos meus pais. Descobri uma nova paixão além das paredes do escritório. Tracei uma rota inusitada. Guardei o medo na gaveta. Comprei passagens para Bali sem data para voltar. Pedi demissão no emprego. Senti culpa. Fui questionada pela família. Fiquei em dúvida. Fugi de decisões permanentes. Respirei fundo. Me despedi dos amigos e familiares. Respondi “vou sentir saudades”. Fiquei em dúvida. Tive insônia um dia antes de embarcar. Sonhei com o meu ex namorado. Senti frio na barriga. Pensei em desistir. Virei o corpo antes de embarcar. Vi meus pais. Chorei. Respirei fundo. Lembrei do meu joelho roxo na escola. Ignorei todos os meus medos. Embarquei. Olhei a paisagem pela janela do avião. Agradeci. Fechei os olhos. Vivi.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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