O tempo que te levou embora

Batia levemente alguns dedos sobre a mesa enquanto terminava de fumar um cigarro com a outra mão. Deu uma última tragada e apagou a bituca num cinzeiro em formato de dado.

“Ele teria gostado desse cinzeiro… Por que nunca lhe dei um cinzeiro de presente?”, ela pensou enquanto ainda juntava com as pontas dos dedos algumas cinzas que estavam espalhadas pela mesa.

Estava sozinha há alguns dias. Gostava de ficar sozinha, mas estava de saco cheio. Precisava ver gente, jogar conversa fora, fumar um cigarro sem precisar olhar para aquele cinzeiro de dado. Estava cheia daquele cinzeiro, um presente que sua amiga trouxe de Londres.

Mesmo assim, sabia que não estava pronta. Precisava ficar mais alguns dias em sua própria companhia e aproveitava aquelas horas de solidão para refletir sobre tudo o que tinha acontecido nos últimos tempos. Repassou o primeiro encontro, a primeira briga, o primeiro “tempo”, a primeira vontade de jogar tudo pro alto, a primeira certeza de que estava amando de verdade… Repassou tantas vezes que chegou até a confundir a ordem de alguns fatos. Já não sabia mais o que era invenção e o que era realidade.

Quando resolveu fumar mais um cigarro (já era o final de um maço em menos de um dia), se deu conta de quanto tempo já tinha passado. Ou melhor, se deu conta de como o tempo já o tinha levado embora, e se sentiu aliviada. Por mais que não estivesse pronta para uma nova história com outra pessoa, estava pronta para uma história com si mesma. Estava pronta para ser quem, há tanto tempo, queria ser.

“Por que nunca lhe dei um cinzeiro?”, ela se perguntou mais uma vez enquanto dava as últimas tragadas. Não sabia a resposta daquela pergunta. Nos segundos que se passaram logo em seguida ela prestou atenção no cigarro que estava sendo queimado. Rapidamente, ele diminuía de tamanho. Rapidamente, ele era levado pelo tempo.

“Nunca lhe dei um cinzeiro”, ela já não se perguntava mais. Assim como aquele cigarro que se apagou entre os seus dedos, o primeiro amor da sua vida foi levado pelo tempo. Algumas coisas não tem respostas, algumas coisas simplesmente chegam e se vão. E está tudo bem.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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