“13 Reasons Why”: ame ou odeie, mas assista.

Confesso que não achei que eu chegaria a escrever um texto sobre “13 Reasons Why”. Na verdade, nem planejava assistir a série. Já tinha lido o livro de Jay Asher alguns anos atrás e não tinha gostado muito – provavelmente porque não consegui absorver a história da maneira correta.

Num dia qualquer resolvi dar uma chance para a série e não me arrependi. Queria assistir justamente para reformular a minha opinião ou simplesmente reforçar a anterior. O que aconteceu foi surpreendente: reformulei totalmente a minha opinião de alguns anos atrás. E reformulei tanto que precisei escrever um texto sobre o assunto.

“13 Reasons Why” navega por um mar muito perigoso justamente por tratar de um tema que ainda é tabu na sociedade, mas independente das possíveis críticas, acredito que cumpra um papel relevante e nos faça refletir sobre muita coisa. É importante assistir para criar uma opinião e conseguir discutir sobre prós e contras.

Abaixo estão 8 pontos que chamaram minha atenção e me fizeram pensar 😉

1.Não é (apenas) sobre suicídio

É lógico que o centro de tudo está em torno do suicídio de Hannah, no entanto, o que gira em volta é tão importante quanto. A série não discute apenas o suicídio em si, mas o bullying; a postura omissa das escolas diante diversos tipos de bullying; a relação conturbada entre adolescentes; a necessidade de auto afirmação dos jovens; a mulher como objeto, o assédio e o estupro; entre muitos outros temas. Alguns desses tiraram o meu sono – me peguei relembrando inúmeras situações que vivenciei em minha adolescência e olhei para tudo aquilo com outros olhos. Acabei me lembrando de situações de bullying no colégio e como a instituição era omissa; de festas da faculdade em que os garotos se viam no direito de desrespeitar as garotas e tratá-las como objetos; da necessidade que eu e todos meus amigos tínhamos de nos firmarmos uns para os outros; das panelinhas completamente idiotas e da dificuldade de se encontrar. Confesso que sofri uma espécie de lavagem cerebral e pensei duas vezes antes de ter um filho e colocá-lo num ambiente hostil desses.

2.Coisas pequenas importam (e MUITO)

Uma das coisas que eu pensei quando li o livro foi que tudo o que aconteceu com a Hannah não era o suficiente para que ela se matasse. Tenho até vergonha de ter dito algo como isso, mas hoje minha visão é completamente diferente. Em primeiro lugar, ninguém tem o direito de julgar se a dor do outro é grande ou pequena. As pessoas são diferentes e reagem de formas diferentes. Talvez, se fosse outra garota e não a Hannah, as coisas aconteceriam de outra forma. Talvez não. A personalidade e até a genética de cada um contribuem para um caso de suicídio. Pessoas mais sensíveis e românticas como Hannah sentem o mundo de forma diferente e não cabe a nós julgar se os motivos dela eram insuficientes. Para ela, eram mais do que o suficiente. Mais do que isso: foram pequenas coisas que desencadearam uma reação em cadeia. Nenhum fato que ocorre na história pode ser estudado isoladamente, pois uma coisa é consequência da outra até que num ponto Hannah já está calejada de tanto sofrimento.

3.A tormenta psicológica de Hannah poderia ter sido mais explorada

Acredito que a impressão de que o suicídio não tinha motivos fortes o suficiente para acontecer possa vir da seguinte razão: na minha opinião a tormenta psicológica de Hannah é explorada de uma maneira leve. Acho que há formas mais pesadas de evidenciar tudo o que se passa na cabeça dela e, dessa forma, o espectador sentiria muito mais a sua dor. Estou falando daqueles momentos bem sombrios mesmo, sabem? Acredito que isso tenha sido explorado de forma mais leve e não acho que seja ruim, apenas pode dar a impressão errada em alguns momentos. Afinal, tirar a própria vida é com certeza uma das decisões mais pesadas e difíceis que um ser humano pode ter – não vem do dia pra noite e sem carregar um grande peso. Na minha opinião, todos esses dilemas e pensamentos de Hannah não foram aprofundados sob a perspectiva psicológica da personagem em seu lado mais sombrio.

4.Os adultos se esquecem como é sofrer na pele de um adolescente

Uma coisa incrível que foi dita nos créditos com os atores, produtores e psicólogos é que os adultos simplesmente se esquecem como é sofrer na pele de um adolescente. As dores de um jovem de 16 anos parecem ser eternas e isso pode causar uma grande tormenta para quem sofre muito como a Hannah nessa fase da vida. O grande defeito dos adultos é se esquecerem desse fato – justamente por isso os jovens encontram dificuldade de se abrirem com os pais, pois já presumem que estes não irão compreendê-los. É essa dificuldade que tanto Hannah quanto Clay demonstram ter – nenhum deles consegue expressar seus sentimentos e dores.

5.As escolas não são apenas instituições de ensino, são locais de convivência social

Por experiência própria posso dizer que já vi escolas completamente omissas em relação ao bullying e isso me provoca náuseas. Os colégios simplesmente ignoram o que se passa entre os adolescentes, sendo que essa deveria ser a prioridade. Se trata de um lugar em que o desconforto causado por brincadeiras completamente inadequadas (como uma lista de “gostosas” do colégio) pode gerar consequências desastrosas no futuro. O papel das escolas na vida das crianças e adolescentes é primordial. Isso porque é lá que se formam os primeiros laços afetivos além da família e é um ambiente no qual os alunos estão em contínuo processo de formação de personalidade. Essa questão realmente me fez pensar: se eu tivesse um filho, como seria? Como eu poderia controlar essa hostilidade se as próprias escolas não assumem responsabilidades? Confesso que fiquei com medo.

6.Hannah não é uma heroína

Li isso em algum lugar e concordei completamente. Hannah não é e não deve ser vista como uma heroína. Isso porque se ela for a heroína da história estaremos celebrando o suicídio. O que Hannah fez pode e deve ser evitado. Nesse caso, ela tornou o suicídio dela um motor de transformação para os que permaneceram vivos, proporcionando um significado muito maior (e até positivo, visto que tem o objetivo de abrir os olhos das pessoas) para um ato sombrio em sua magnitude. Seu suicídio não foi em vão, pois causou o maior rebuliço na vida daqueles que cruzaram o seu caminho e, por esse motivo, temos a impressão de que ela é uma grande heroína. Não. Acredito que o herói da história seja Clay – é ele quem luta por Hannah e tem uma grande mudança de atitude com Skye na cena final.

7.As mulheres ainda têm uma grande luta pela frente

A série só evidenciou ainda mais tudo o que as mulheres sofrem todos os dias: assédio, estupro, desrespeito. Há anos atrás, esse tipo de coisa era tida como normal e dificilmente víamos mulheres lutando por mudanças. Hoje, tudo mudou, mas “13 Reasons Why” me lembrou como é difícil ser mulher. Durante as cenas, me peguei pensando como é absurdo ter medo de andar na rua à noite porque sei que posso ser estuprada; me peguei pensando quantas vezes um cara já apertou a bunda de uma garota sem permissão nas festas de faculdade que um dia já frequentei; me peguei pensando quantos assobios me deixaram sem jeito enquanto esperava o ônibus após um dia difícil no trabalho. Sinto um alívio enorme ao saber que estamos lutando por um mundo mais justo e tudo o que Hannah passou na série me relembrou o quanto essa luta é importante. Fico assustada quando penso que todas essas coisas já foram tidas como normais em algum momento da história da nossa sociedade.

8.É preciso prestar atenção no outro

A grande lição que ficou para mim é o quanto precisamos prestar atenção nas pessoas que nos cercam. Hannah deixa claro no episódio final que ninguém se importou o suficiente, ou seja, ninguém realmente enxergou que ela precisava de ajuda. É normal pessoas depressivas e que pensam em se matar esconderem o que estão sentindo e não conseguirem colocar suas dores para fora. Elas precisam desse olhar mais demorado daqueles que as cercam – esse olhar que identifica um pedido de socorro silencioso. Hannah fez alguns pedidos de socorro silenciosos durante a história, como por exemplo, o bilhete anônimo que a professora leu em voz alta para a sala. O próprio Clay, por mais bondoso que fosse, não enxergou que ela precisava de ajuda. O grande erro de todos – escola, pais, amigos – foi não prestarem atenção o suficiente.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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