As dores e delícias de fazer uma transição profissional

Hoje resolvei escrever sobre um tema um pouquinho diferente, mas que acredito ser importante para muita gente: transição profissional.

Como vocês já sabem, sou publicitária por formação. Trabalhei por alguns anos em agências de publicidade na área de planejamento estratégico, chegando a experimentar um pouco de tudo: agências grandes e pequenas, e trabalhar com contas locais e globais. Aos poucos fui sentindo que faltava algo no meu dia a dia e que a essência das agências não era compatível com a minha.

Eu, que há um bom tempo já tinha descoberto o meu lado artístico e sentia a necessidade intensa de viver alinhada ao meu propósito, não conseguia enxergar significado no produto final do meu trabalho na agência. Mesmo assim, não sabia muito bem o que poderia fazer sem ser aquilo. Trabalhar em grandes empresas na área de marketing? Não. Trabalhar em consultorias? Não.

A pressão é outro fator que atrapalha muito esse processo. Além de não sabermos direito que rumo tomar, nos sentimos pressionados pela sociedade. Aquela sensação de que precisamos saber logo se vamos para a direita ou esquerda, que precisamos ser bem sucedidos rapidamente, que não podemos errar e voltar atrás, que não devemos decepcionar os nossos pais. Tudo isso faz esse momento se tornar ainda mais difícil.

Passei muito tempo conversando com pessoas diferentes e refletindo sobre as inúmeras possibilidades que existiam. Não queria me deixar levar pela pressão e dar um passo errado. Essa é uma das partes mais difíceis de uma transição profissional: entender as diferentes vertentes de atuação que existem dentro do que você quer fazer. Demorei um pouco para encontrar o terceiro setor e de fato entender como ele funciona. Ainda estou aprendendo um pouquinho a cada dia que passa, mas ali achei um caminho que já fazia muito mais sentido para mim e estava alinhado ao meu propósito de vida.

Foi um caminho árduo e cheio de questionamentos, mas enfim saí das agências de publicidade e concretizei uma transição para o terceiro setor na área de educação. Finalmente senti na pele o que era trabalhar por algo que não visava o lucro e sim melhorias sociais. Foi libertador. É incrível saber que existem sim pessoas dispostas a se dedicarem uma vida inteira para uma organização sem fins lucrativos, onde a ganância não tem vez – coisa que era tão rotineira na minha vida de publicitária em agências.

Hoje, quando olho para trás, enxergo inúmeros aprendizados que vieram com essa transição.

  • Primeiramente, consigo agradecer mais pelas experiências anteriores que tive, que me ensinaram tanto tecnicamente e sobre como funciona o mercado, pois há uma grande diferença entre o mercado em si e o terceiro setor. Além disso, foram essas primeiras experiências que me fizeram entender um pouco o que eu queria e não queria para mim profissionalmente.
  • Em segundo lugar, entendi que não existem lugares perfeitos para trabalhar. O terceiro setor está longe de ser um mar de rosas e trabalhar com causas sociais é um desafio diário enorme (às vezes, desconfio que seja mais desafiador do que nas agências), seja por falta de recursos básicos, como pela frustração de muitas vezes não conseguir concretizar algumas coisas.
  • Em terceiro lugar, o aprendizado mais importante que toda essa movimentação me proporcionou foi entender que transições são normais e fazem parte da vida. Por muito tempo achei que eu era uma anomalia, pois meu amigos estavam todos plenos nas multinacionais ou agências de publicidade, e eu sentia que algo estava errado. Hoje, vejo muitos deles infelizes e insatisfeitos, largando tudo para fazer outra faculdade ou em busca de outros formatos de empresas. Hoje sei que eu não era a única.

Fazer transições profissionais nunca será fácil. Exige muita reflexão e persistência. Nem sempre tudo acontece de uma hora para a outra e, muitas vezes, precisamos primeiro entender o que de fato queremos para nós. Hoje enxergo as transições profissionais como um fluxo natural da vida, no qual vamos nos renovando, remodelando, e criando novas prioridades que, consequentemente, nos fazem querer explorar outros ares e buscar algo que esteja mais alinhado àquilo que acreditamos e somos.

Por essas e outras que desejo muita coragem para aqueles que sentem necessidade de fazer uma transição profissional. Não será fácil nem simples, mas a sensação de que você deu mais um passo em direção à sua essência é extremamente gratificante e faz todo o processo valer a pena. 

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

Um comentário em “As dores e delícias de fazer uma transição profissional

  1. Bruna, gostei dessa mudança de tema no seu blog. Diversificar é bom mesmo, … na carreira e aqui também!
    Parabéns!
    E, fico feliz, também, em conhecer esse seu lado desafiador e saber que essa mudança para a área da educação (sofridinha nesse nosso país, não?) tenha sido tão transformadora na sua vida!
    Continue infundindo os questionamentos que a inquietam.É renovador!
    Beijos!

    Curtir

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