Quem é você fora do mundo corporativo?

Antes de perguntar “O que você faz?”, que tal começar por “Quem é você?”.

Esse foi um dos questionamentos que a minha mentora trouxe nos últimos meses. Ela mora na França há muitos anos e tem me guiado em vários questionamentos sobre a vida profissional e pessoal.

Em uma das sessões de mentoria ela comentou sobre como se incomodava com o fato de que, no Brasil, os vínculos sociais começam a ser construídos por meio da seguinte pergunta: “O que você faz?”. Muito antes de nos preocuparmos em saber quem é de fato a outra pessoa e o que ela gosta de fazer, estamos condicionados a descobrir qual é sua profissão e onde trabalha.

Até então eu nunca tinha parado para refletir sobre como essa constatação é verdadeira. Eu mesma faço isso o tempo todo. Logo que conheço alguém, de cara pergunto o nome e o que a pessoa faz da vida em âmbito profissional. Dificilmente alguém entende que estamos perguntando o que ela faz no tempo livre, por exemplo. Fica tudo restrito ao campo da profissão.

Que loucura! Estamos totalmente condicionados a agir dessa forma. Comecei a reparar mais nesta questão e, recentemente, quando fui à palestra de um profissional conhecido por ser muito bem-sucedido e ter trabalhado em grandes empresas, os pensamentos sobre o assunto voltaram.

Ao longo de seu discurso, detectei mais alguns pontos que me fizeram refletir. Ele falou sobre como construiu a sua trajetória profissional (que por sinal era bem tradicional) para “ser alguém na vida”. O primeiro pensamento que me ocorreu foi:

“Será que ‘ser alguém na vida’ está diretamente relacionado a ter uma carreira de sucesso? Mas o que é uma carreira de sucesso?”

O termo sucesso é extremamente relativo – o que é sucesso para o vizinho não necessariamente é para mim. Mas fiquei com a pulga atrás da orelha: por que as pessoas associam “ser alguém na vida” diretamente (e às vezes exclusivamente) ao âmbito profissional?

Posso “ser alguém na vida” construindo projetos maravilhoso que não me dão retorno financeiro, mas impactam a vida das pessoas que me cercam? Posso “ser alguém na vida” mesmo não trabalhando em uma multinacional e ganhando bônus milionários no final do ano, mas sendo uma pessoa do bem que propaga o amor ao próximo? Posso ser “alguém na vida” trabalhando remotamente e priorizando a minha vida pessoal?

Afinal, eu posso ser quem eu quiser? Ou no fim do dia serei julgada por minhas escolhas não me levarem ao modelo do que é ser “alguém na vida”?

Querendo ou não, a sociedade está condicionada a associar diretamente o nível de sucesso das pessoas aos seus cargos e salários dentro de empresas; ao status e fama que alcançam. Esses conceitos estão sendo desconstruídos aos poucos, mas ainda permeiam bastante o nosso dia a dia.

E, com isso, chego a mais uma reflexão: será que algumas pessoas não questionam o que significa “ser alguém na vida” pelo simples fato de não saberem quem são fora do mundo corporativo?

Vejamos um exemplo. No mundo corporativo eu sou a Bruna, formada em publicidade e propaganda, com 5 anos de experiência em planejamento e marketing. Mas quem é a Bruna fora deste ambiente?

A Bruna fora do mundo corporativo é sensível, escritora, poeta e sonhadora. Valoriza a cultura, ama a literatura e quer disseminar o poder da escrita por todos os cantos que passa.

Eu tenho plena consciência de quem sou e é exatamente isto que rege, em diferentes níveis de profundidade, a minha atuação nas mais variáveis esferas da vida. No entanto, tenho a sensação de que alguns indivíduos perdem as suas identidades no mundo corporativo e não se encontram mais.

Visto que estamos condicionados até a conhecermos as pessoas por meio de suas atuações profissionais e não por quem são na essência, não fica difícil entender as razões pelas quais tal perda de identidade acontece.

Hoje, quando conheço novas pessoas, antes de tudo tenho me forçado a entender quem são fora do mundo corporativo – o que gostam de fazer, seus sonhos, inseguranças. Por mais que o trabalho seja uma enorme e significativa esfera em nossas vidas, com certeza não é a nossa vida por completo, não sendo capaz de nos definir. Eu, com certeza, sempre serei a Bruna sonhadora e escritora antes de ser a Bruna profissional de marketing.

Isso porque muito antes sermos alguém no mundo corporativo, fomos alguém que simplesmente amava, sonhava, criava – essa pessoa deve sempre continuar existindo. E, para ajudar nesse processo, é válido sempre buscar entender “quem você é” antes de tentar decifrar “o que você faz”.

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Escrito por

Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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