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10 ensinamentos incríveis de Haruki Murakami sobre a vida de um escritor
Literatura

10 ensinamentos incríveis de Haruki Murakami para todos os escritores

Haruki Murakami é um escritor e tradutor japonês que tem seus livros traduzidos em mais de 40 idiomas.

Terei que iniciar o artigo confessando que ainda não li nenhum de seus romances ou contos, mas li sua obra “Romancista como vocação”.

O livro estava em minha prateleira há uns dois anos. Ganhei de presente da minha ex-chefe, quando saí do mundo da publicidade. Foi um belo presente de despedida, afinal, acho que ela tinha entendido por que eu estava deixando aquela realidade para trás.

No entanto, por algum motivo tinha despriorizado a leitura. E tudo bem, pois acredito que esse tenha sido o momento certo para abraçar com todas as minhas forças os ensinamentos de Haruki Murakami.

Haruki Murakami (imagem: reprodução)

Antes de listar cada um desses ensinamentos incríveis que ele me proporcionou, quero elogiar esse grande escritor pela sua humildade. O livro é, basicamente, sobre a sua trajetória como romancista e fica tão nítido em cada palavra o quão humilde ele é.

Poxa, ele tem livros traduzidos em mais de 40 idiomas e mesmo assim não possui um tom esnobe ou superior. O escritor japonês tem uma rotina extremamente admirável, prezando pelo seu bem-estar físico e mental e é muito crítico em relação às suas obras para que o resultado seja sempre o melhor possível.

Ao longo dos ensinamentos listados neste artigo ficará mais fácil entender sobre a personalidade do autor. Ah, e vale ressaltar que mesmo com esse resumo de aprendizados, vale demais a leitura do livro para quem é escritor ou simplesmente admira a literatura.

1. Seja dedicado e tenha paciência

O primeiro ponto que Murakami aborda é que escrever um romance uma vez pode até não ser tão difícil, mas persistir nesta atividade não é para muitos.


Leia também: Como escrever um livro: passo a passo para realizar o seu sonho


Existe uma seleção natural que acaba excluindo aqueles que não têm persistência o suficiente. Ser um romancista exige muita dedicação, resiliência e paciência.

“No entanto, continuar escrevendo romances incessantemente, isso, sim é difícil. Não é qualquer um que consegue. Para isso, como eu já disse, é preciso algo como uma competência especial. Acho que talento não seja exatamente a palavra. Então, como saber se uma pessoa tem essa competência? Só há um jeito: jogá-la na água e ver se ela nada ou afunda (…) Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever. E elas continuam escrevendo romances.”

Haruki Murakami

2. Encontre seu estilo de escrita

Eu me identifiquei muito com este ponto, porque Murakami conta como encontrou aos poucos o seu estilo de escrita e como esse processo foi extremamente importante.

Em certo momento da sua carreira ele começou a escrever em inglês, o que fez com que as palavras e estruturas gramaticais usadas fossem mais limitadas. Com isso, acabou encontrando um estilo muito interessante.

“Nessa hora descobri que, por mais que eu tivesse poucos artifícios, a emoção e a intenção podiam ser expressas sem problemas se fossem combinadas de forma eficaz, dependendo de como fosse essa combinação. ”

Haruki Murakami

O principal aprendizado de Murakami foi que não precisava usar palavras difíceis para ser um bom escritor.

Expressões complicadas e que ninguém entende não necessariamente ajudam na construção de um texto de qualidade.

Eu me lembro de, por muito tempo, me questionar exatamente sobre isso. Os livros que lia na escola eram tão difíceis que quando comecei a escrever eu ficava em dúvida se a minha escrita era boa o suficiente.

Aos poucos fui me conscientizando de que cada escritor tem um estilo e o mais importante é se sentir confortável com a sua escrita. Eu, por exemplo, valorizo uma escrita fluida, mas que contenha mensagens poderosas.

3. Não se apegue aos prêmios literários

Este foi um dos pontos mais surpreendentes do livro para mim e que evidencia fortemente o quão humilde é o romancista.

Ele simplesmente não supervaloriza os prêmios literários, enfatizando que um livro que recebe determinado prêmio poderá ser esquecido com o passar dos anos se não marcar a vida das pessoas.

A sua provocação é certeira: você se lembra quem ganhou o Nobel três anos atrás? Provavelmente muitas pessoas não se lembrarão. Mas se eu pedir para você me dizer o nome de uma obra que realmente marcou a sua vida, ela estará fresquinha em sua mente.

É isso. Prêmios são um ótimo reconhecimento, é claro, mas não garantem que um livro se sustente como relevante por anos e anos.

“O prêmio literário pode acrescentar brilho a uma obra específica, mas não consegue lhe oferecer vida (…) Sinto um pequeno orgulho por ter conseguido escrever e viver até agora apenas com a minha competência individual.”

Haruki Murakami

4. Entenda o que é originalidade

O romancista traz pontos muito pertinentes sobre a questão da originalidade, enfatizando como a mesma pode gerar muito estranhamento no início. Um ótimo exemplo abordado são os pintores Van Gogh e Picasso.

“No início, as pinturas de Van Gogh e Picasso assustaram muito as pessoas e em alguns casos causaram até desconforto (…) Isso não significa que as obras deixaram de ser originais com o tempo; o que acontece é que a sensação das pessoas se identificou com essa originalidade que foi absorvida naturalmente no seu corpo como uma referência.”

Haruki Murakami

O que o autor quer dizer com se tornar uma referência é que, aos poucos, obras originais que a princípio causavam certo estranhamento passam a ser clássicos. Isso significa que elas são respeitadas por um grande público e utilizadas como referência dentro do seu segmento.

Murakami também lista alguns dos requisitos que considera determinantes para um artista ser considerado original:

  • Ter um estilo próprio que se diferencie de outros criadores
  • Ser capaz de renovar o seu estilo por conta própria
  • Com o tempo ter seu estilo próprio considerado um padrão que faz parte do critério de avaliação das pessoas

5. O que escrever: observe e reflita sobre o mundo

“Cada um de nós precisa ter a própria garagem.”

Haruki Murakami

Esta frase sempre me lembrará de continuar nutrindo a minha garagem de reflexões e observações em relação ao mundo. Esse é um dos pré-requisitos para ser um bom escritor e de fato ter sobre o que escrever.


Leia também: Como eu escrevi e publiquei um livro antes dos 25 anos


Recapitulando rapidamente, o romancista enfatiza que, em primeiro lugar, todo escritor precisa ler muito. A segunda dica é que antes de começar a escrever é necessário ter um olhar muito observador em relação ao mundo. Por fim, é preciso refletir sobre tudo.

Reflita sobre as pessoas, experiências e acontecimentos. Tudo isso é material bruto para escrever, essa é a sua garagem – pessoal e intransferível, que ajudará a enriquecer toda a sua produção textual.

“Se você deseja escrever um romance, observe atentamente seu entorno. O mundo pode parecer monótono, mas está cheio de diamantes brutos, atraentes e misteriosos. Romancistas são aqueles que conseguem identifica-los. E, ainda melhor, eles são oferecidos quase gratuitamente. Se você tiver um bom par de olhos conseguirá escolher e coletar livremente essas pedras preciosas brutas. Existe profissão mais fascinante do que essa?”

Haruki Murakami

6. Organize seu tempo

Em relação ao requisito tempo para escrever um romance, Murakami conta bastante sobre o seu processo de escrita, que passa por várias etapas.

Não vou entrar no detalhe do detalhe, mas vale ressaltar o que considerei mais relevante.

Primeiramente, ao escrever um romance, Murakami impõe uma regra de produzir cerca de dez páginas de 400 caracteres de manuscrito japonês por dia. A disciplina e uma dose de rotina, portanto, são extremamente importantes e ajudam a não perder o ritmo de escrita.

Quando ele termina a primeira versão do original, deixa o mesmo descansar um tempo para, então, iniciar a revisão inicial que leva em torno de um a dois meses para ser finalizada.

Esse processo de descanso e revisão se repete algumas vezes, até que o romance fica “guardado na gaveta” por um período mais longo e depois é revisado uma última vez.

Este processo é chamado de “cura” e só depois dele é que a obra é entregue para outra pessoa ler e dar opiniões.

Além de todo esse processo, o escritor enfatiza que, apesar de toda a dedicação e tempo, é muito exigente e sempre acaba encontrando possíveis melhorias em suas obras do passado.

Mesmo assim, ele diz que procura sempre pensar que na época em que escreveu a obra, certamente tinha dado tudo de si e não havia como ficar melhor.

“O tempo é um fator muito importante para que uma obra seja criada. Mais do que qualquer outra coisa, a preparação é importante. É um período de silencio em que cultivo dentro de mim o embrião do romance que está para ser escrito e desenvolvo o desejo de ‘escrever um romance’.”

Haruki Murakami

7. Entenda que escrever é um ato solitário

Uma das principais características do ato de escrever é que ele é extremamente individual e solitário. O romancista japonês deixa isso bem claro ao longo de um dos capítulos do livro.

O fato de ser solitário faz com que você mesmo se parabenize e se reconheça quando necessário. Isso pode se tornar um peso em alguns momentos, mas suspeito que escritores naturalmente sintam-se confortáveis nessa situação (caso contrário, não seriam escritores).

“Às vezes me sinto como se estivesse sentado sozinho no fundo de um longo poço. Ninguém me ajuda, ninguém dá tapinhas nas minhas costas e me elogia: ‘Parabéns, hoje você fez um bom trabalho.’”

Haruki Murakami

Além disso, o romancista também explora a necessidade que sente de ter um bom condicionamento físico, quebrando os estereótipos de que um escritor não necessita fazer exercícios físicos para produzir melhor.

“Estudos recentes indicam que a prática de exercícios aeróbicos acelera consideravelmente a formação dos neurônios no hipocampo do cérebro (…) A combinação de exercício físico e trabalho intelectual no dia a dia influencia positivamente o trabalho criativo.”

Haruki Murakami

8. Saiba como criar personagens

Um dos capítulos de “Romancista como vocação” explora a criação de personagens e a importância de se conhecer várias pessoas para esse processo.

Os personagens não devem ser completamente previsíveis, pois dessa forma não despertarão a curiosidade do leitor. Eles precisam ser verossímeis e realmente aguçar o interesse das pessoas, caso contrário, acabam não agregando valor para a obra e seus leitores.

Além disso, não se deve criar apenas personagens agradáveis (por mais que seja uma grande tendência). É preciso dar amplitude para a obra criando personagens desagradáveis e que gerem incômodos também.

É claro que não existem regras absolutas, mas essas são “as boas práticas” do romancista.

Outro ponto bem interessante que ele relata é o fato de ter escrito por muitos anos em primeira pessoa e como foi difícil transitar para a terceira pessoa.

“Uma das coisas que me deixam mais feliz quando escrevo é a sensação de que posso ser qualquer pessoa, só preciso querer.”

Haruki Murakami

9. Não se preocupe tanto em saber quem são seus leitores

Murakami é muito claro: ele não sabe direito quem são os seus leitores. Tem algumas suposições de que envelheçam junto com ele e que, portanto, uma parcela é de pessoas mais velhas. No entanto, não tem clareza total de quem é a maioria do seu público.

O romancista também explora o fato de que escreveu seu primeiro romance porque isso o fez se sentir bem, simples assim.

Hoje, é claro que ele leva em conta seus leitores na hora da escrita, mas não de uma forma concreta como uma empresa leva em conta seu público-alvo para criar um produto específico.

“Eu mantenho em mente apenas o leitor imaginário. Ele não tem idade, profissão nem sexo. (…) O importante, o incontestável, é o fato de que estou ligado a ele.”

Haruki Murakami

10. Descubra o que você sente quando escreve

Cada escritor escreve por um motivo ou se sente de uma determinada forma quando está colocando as palavras no papel.

No entanto, acredito que algo conecte todos os escritores ao redor do mundo: a vontade de ser uma brisa fresca de conhecimento e reflexão na vida dos leitores, proporcionando um estado mental revigorante. E Haruki Murakami traduziu o que penso de uma forma bem poética:

“E desejo que, se possível, os meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede do seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples.”

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Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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