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Cinema

“Parasita” e as reflexões sobre desigualdades sociais

Não sou especialista em cinema, mas gosto muito de assistir e comentar filmes, principalmente aqueles que me proporcionam reflexões relevantes. “Parasita” foi um desses filmes!

Nas últimas semanas me dediquei a assistir aos principais indicados ao Oscar e foram poucos os que não proporcionaram bons questionamentos.

“Parasita” foi, de longe, o meu preferido, principalmente por ser capaz de abordar tão profundamente uma questão atemporal: as diferenças sociais.

O que “Parasita” nos ensina sobre diferenças sociais?

Muitos países convivem com uma desigualdade social gritante: muitos com pouco e poucos com muito.

“Parasita” não é o primeiro e nem será o último a retratar o tema, mas a construção do filme é única. Cada detalhe está lá para nos fazer pensar.

O filme começa e termina mostrando o porão quase subterrâneo no qual a família Kim vive na Coreia do Sul. Muitas pessoas vivem em locais como esse no país.

A história gira em torno dessa família que, em busca de melhores condições de vida, se infiltra de uma maneira curiosa na mansão dos Park. Mãe, pai, filha e filho assumem diferentes funções e, aos poucos, passam a trabalhar para os Park, também compostos por quatro pessoas.

A família Park

Conforme a história se desenrola, o plano dos Kim acaba sofrendo algumas reviravoltas e tem um final para lá de inusitado.

Entre tantas reflexões que “Parasita” nos proporciona, nesse artigo vou focar em três que considero bastante relevantes.

As dificuldades da ascensão social

Tudo o que os Kim querem é viver em melhores condições.

O porão quase subterrâneo no qual moram é um símbolo das classes sociais mais baixas da Coreia do Sul, que não tem condições de morar em mansões como a da família Park.

Tal porão fica quase abaixo do nível das ruas, mas ainda não é totalmente subterrâneo. Por outro lado, os Park vivem em uma chique mansão.

O filme utiliza espaços verticais para explorar a divisão de classes, pois enquanto os Kim estão quase embaixo da terra, os Park estão em um espaço alto, ou seja, superior. Essa é a uma das mensagens que “Parasita” nos transmite de maneira sutil: os pobres por baixo e os ricos por cima. A ascensão social metaforicamente representada pelas escadas das moradias dos personagens.

No fim da história (não vou revelar o que acontece) fica claro que a condição da pobreza é muito difícil de ser ultrapassada. O estudo “A Broken Social Elevator? How to promote social mobility” revela que poucas pessoas de classes sociais mais baixas sobem na vida e, aos mesmo tempo, os ricos mantêm as suas fortunas. Além disso, são necessárias pelo menos cinco gerações ou 150 anos para a criança de uma família pobre elevar os seus níveis sociais.

A familiaridade com a tragédia

Em uma cena na qual o porão dos Kim sofre com uma inundação que destrói tudo, a filha aparece preocupada procurando pelo seu maço de cigarro em meio ao caos.

Ao encontrá-lo, ela demonstra alívio, ignora a tragédia, senta-se em cima da privada que jorra água de esgoto e fuma o cigarro. Neste momento, nos damos conta de que uma tragédia como aquela pouco abala a garota. Por fim, a conclusão que podemos tirar é que pessoas mais pobres têm maior familiaridade com a tragédia.

A família Kim na inundação

Enquanto isso, a mesma chuva que inundou a casa dos Kim e os forçou a dormirem em um ginásio naquela noite também estragou a viagem de acampamento dos Park. A rica família trata o acontecimento como um grande desastre, enquanto os Kim, que tiveram muito mais prejuízos, encaram a situação de maneira tranquila.

Isso acontece porque as pessoas que vivem em condições sociais mais baixas estão acostumadas a lidarem com verdadeiras tragédias, ou seja, isso já faz parte do dia a dia. Por outro lado, os ricos se abalam com muito menos e tornam pequenos acontecimentos em grandes tragédias.

Quem são os verdadeiros parasitas?

Segundo o dicionário, parasita tem o seguinte significado:

1. Biologia: organismo que vive de ou noutro ser vivo (o hospedeiro), de quem obtém alimento e a quem causa dano.

2. Figurado, pejorativo: pessoa que vive à custa de outrem.

A princípio, todos pensam na família Kim como os parasitas da história, ou seja, aqueles que vivem às custas dos Park.

No entanto, com o desenrolar do filme, nos deparamos com um importante questionamento: seriam os Kim os verdadeiros parasitas?

Não seria a família Park, que vive sugando os recursos de seus funcionários, explorando-os e tirando suas dignidades? No final do filme há uma cena em que o pai da família Kim ultrapassa alguns limites com o Sr. Park e, em troca, o rico homem o coloca em seu lugar, dizendo que ele estava sendo pago para fazer aquilo.

A verdade é que ricos como os Park esperam que os pobres sejam fantasmas e se chateiam quando eles cruzam seus caminhos. Eles não querem precisar enxergar a realidade da pobreza, preferindo apenas sugar essas pessoas que trabalham em suas casas, sem as tratarem com o devido respeito em determinados momentos.

Ao longo do filme, os Park demonstram desconforto com o cheiro dos Kim e nem se preocupam em disfarçar o incômodo. O cheiro, no entanto, não é específico da família, é o cheiro da pobreza com o qual os Park não querem se deparar.

Somos capazes de superar as barreiras da desigualdade social?

Estamos prontos para superar as barreiras sociais? Ou melhor: enxergarmos que essas barreiras existem?

Será que vivemos alienados como os Park? No fundo, apesar de se considerarem tão superiores, são ingênuos e enganados por uma família de pessoas simples, porém, mais espertas do que eles.

O dinheiro pelo qual os Park querem que os Kim sejam gratos, na realidade não é capaz de mudar nada. Por mais triste que seja, a mensagem final do filme é sobre como as barreiras sociais não são fáceis de serem superadas.

Como já citei anteriormente, estudos apontam a enorme dificuldade que as classes sociais mais baixas enfrentam para subirem na vida. Até lá, continuarão vivendo em porões, sejam eles na Coreia do Sul, no Brasil ou em qualquer outro lugar. A verdade é que o problema é muito maior do que nos damos conta e, infelizmente, quem vive distante dessa realidade muitas vezes prefere não enxergá-la.


Curtiu o artigo? Conte nos comentários e continue lendo mais reflexões sobre os filmes do Oscar:

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Criadora do Para Preencher e autora do romance "Lola & Benjamin", acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar.

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